segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Tiger Leaping Gorge: Caindo na Garganta do Tigre

 




Planejando o nosso itinerário na China, o trekking do “Tiger Leaping Gorge” (虎跳峡; Hǔtiào Xiá) apareceu como umas das atividades imperdíveis na província de Yunnan. Descrita como uma das melhores e mais bonita trilhas em todo o país, o caminho de 23 km, praticamente todo acima dos 3.000 metros de altitude, passa por bosques de pinheiros, pequenas vilas, terraços agrícolas, tudo com uma vista espetacular das montanhas Haba e seus famosos picos nevados.



Quem te viu e quem te vê. Essa expressão nunca fez tanto sentindo!
Pois quem nos conheceu antes do nosso mochilão, jamais acreditaria que o Maxi e eu estaríamos assim tão animados com a idéia de um trekking. Acho que o Nepal, mudou a gente para sempre. O contato com a natureza, ar puro e a oportunidade de visitar lugares que a maioria dos turistas não conhecem (porque é impossível chegar em carro), é algo indescritível e até um pouco viciante. Pois se é pra ter um vício, que pelo menos ele nos deixe mais saúdaveis e em forma!



Para variar, encontrar informações sobre como chegar, aonde ir e como voltar (seja online ou offiline), é uma tarefa árdua. Definitivamente queríamos fazer o trekking por nossa conta e não através de uma agência. Para nossa sorte, o hostel aonde nos hospedamos em Lijiang organizou um minibus para o Gorge, que nos custou apenas 40 yuan (6.50 USD) ida e volta por pessoa. Deixamos as mochilas grandes em Lijiang, e partimos para a caminhada apenas com o necessário para uma trilha de dois dias, cientes de que poderíamos nos deparar com chuva e muito frio.




O ônibus saiu cedo, antes mesmo do amanhecer. Depois de uma viagem de mais ou menos 2 horas chegamos na bilheteria em Qiatou. A entrada da área protegida custa 65 CNY (11 USD) por pessoa . Já com os nossos tickets na mão, zigzagueamos por uma estrada de terra movimentada e pedindo informação para os locais, encontramos o começo da trilha.

Existem duas formas de conhecer o Tiger Leaping Gorge: pelo percurso de cima, que só pode ser feito a pé, ou pelo de baixo, que basicamente é uma estrada plana asfaltada, por onde dezenas de ônibus turísticos despacham em uma plataforma de observação, centenas de Chineses enlouquecidos para tirar a selfie perfeita com a famosa pedra aonde, diz a lenda, um tigre saltou de um desfiladeiro até o outro para escapar de um caçador. Nós escolhemos o trajeto superior, e devemos ter visto uns 20 turistas no máximo, todos estrangeiros.




Confesso que a minha maior preocupação em fazer a caminhada sozinhos, era de nos perdermos no meio de uma montanha NA CHINA! Afinal, se na cidade eles já não entendem uma palavra do que falamos, imagine só nos cafundós do Judas... Pois todos as minhas inquietudes desapareceram assim que vimos as primeiras placas e setas pintadas em tinta vermelha indicando o trajeto, que está todo super bem sinalizado.



Começamos o ascenso às 10 da manhã, e como eu já havia feito a lição de casa, sabia que a subida seria puxada, especialmente a parte conhecida pelo nome “28 Bends”, que literalmente são 28 dobradas na montanha que levam até a trilha superior. Segundo os blogs de viajeiros, tirando essa parte, a trilha é relativamente fácil. Não é bem assim. 



Pois subimos. E subimos. E subimos mais um pouco. Que alegria foi a nossa em encontrar um refúgio que vendia café e uns cookies para recarregar nossas baterias. E qual foi a nossa tristeza em descobrir, que não havíamos ainda nem começado os 28 Bends! 





Já eram 1 hora da tarde e não estávamos nem na metade do caminho. O jeito era apertar o passo, se queríamos chegar na pousada antes do escurecer. 

Engatamos a primeira e mandamos ver nas 28 curvas. Não sei se esperava o pior, mas não foi assim tão traumático, pelo menos não muito mais difícil do que a subida que já tínhamos feito até então. Chegando lá em cima, veio a recompensa. Fomos presenteados com uma vista de tirar o fôlego. Uma cadeia de montanhas com picos de chantilly e, muitos metros abaixo, o rio correndo forte e partindo o cânion em dois.



Depois de passar por vilarejos, plantações, terraços, algumas vacas e galinhas, paramos para almoçar às 3 da tarde em uma pousada que encontramos no caminho. Eu já estava tão cansada que, por mim, dormiria ali mesmo. Mas seguindo recomedações dos blogs, continuamos a caminhada até a vila BenDi Wan aonde encontraríamos mais opções de pousadas, incluindo o famoso “Halfway Lodge”, aonde basicamente todos os mochileiros fazem a sua parada.  




Para quem já fez trekking no Nepal, o “Halfway Lodge” pode ser considerado um hotel cinco estrelas. Um quarto para duas pessoas, com banheiro privativo, água quente e colchão elétrico (a melhor invenção dos últimos tempos!), nos custou 150 CNY (25 USD). Há também a opção de dormitório que, se não me engano, custava 100 yuan para duas pessoas (8 USD por cama), mas honestamente, depois de 9 horas de caminhada, nós mereceríamos esse luxo.

O melhor dessa pousada (além do colchão elétrico!) foi encontrar com outros viajeiros, trocar experiências e ter a chance de conversar com alguém que não seja o seu parceiro de viagem. Só quem viaja pela China sabe o quanto faz falta falar Inglês, já que é raro encontrar pessoas de outras nacionalidades que não façam parte de um grupo de excursão.




Começamos a caminhada às 9 da manhã, e não demorou muito para cruzarmos com as primeiras quedas d’água que, por vezes, corriam pela própria trilha, fazendo com que uma capa de chuva seja um artigo mais que essencial. Ao contrário do dia anterior, o descenso foi muito mais rápido e, 1:30h depois, chegamos à Tina’s Guesthouse, ponto de partida do ônibus de volta à Lijiang. 





E foi aí que começou o pesadelo. Era cedo e nós queríamos descer até a famosa pedra do salto do tigre. Após consultar um funcionário da Tina’s GH, ele prontamente nos ofereceu um carro para nos levar até a “entrada” do caminho que, segundo ele, estava há 4km da pousada. Toda a situação nos pareceu muito estranha e, com razão, as nossas suspeitas logo se justificaram. O motorista nos deixou no entrada de uma escadaria aonde um morador local, cobrava 15 yuan por pessoa para que baixassemos até a pedra. O motivo, segundo ele, era que a construção e manutenção do caminho foi feita pela população local sem ajuda alguma do governo. Mesmo contrariados, pagamos a taxa, já que não havía outra forma e o motorista já havía ido embora.

E qual foi a nossa surpresa ao encontrar, meia hora depois de descer uns 1000 degraus, outra “bilheteria”, dessa vez nos cobrando 10 yuan adicionais para chegar até a pedra. Nesse momento a revolta tomou conta do nosso ser. 

Tentamos argumentar, mas a mulher estava inflexível. Como sabíamos que isso era ilegal tentamos passar de qualquer forma, e foi aí que a situação se tornou violenta. Depois de insultos por ambas as partes, e ameaças envolvendo rocha pontiagudas, resolvemos voltar sem ver a tal da pedra do Tigre. E apesar de todas as coisas lindas que experienciamos, essa ultima parte deixou um sabor amargo que será difícil de se esquecer.



Claro que a Tina’s GH está recebendo uma comissão, já que mais tarde descobrimos que outros viajeiros mais bem informados usaram outra entrada (Sandy Guesthouse, localizada há apenas 1 km atravessando a ponte à esquerda), pagaram apenas 10 yuan, viram uma cachoeira e chegaram até em cima da pedra. Fiquem atentos a esse esquema para que esse pequeno detalhe não estrague o passeio. 




O trekking do Tiger Leaping Gorge pode ser feito tranquilamente em dois dias porém, pela nossa experiência, o primeiro dia foi desnecessariamente puxado e o segundo, muito curto. Por isso aconselhamos fazer o pernoite em Ya Cha village (aonde almoçamos no primeiro dia), que fica há duas horas antes do Halfway Lodge. Isso te permitirá chegar à Sandy GH por volta do meio-dia, descer até a pedra (possivelmente evitando a taxa, já que os moradores ficam apenas no horário que os turistas descem, ou seja, entre 10 – 11h), almoçar, e tomar o ônibus que sai apenas às 3 da tarde.


O engraçado foi que o trajeto de baixo pela estrada asfaltada, embora mais fácil, não deixa de ser menos emocionante. Deslizamento de pedras são muito comuns nessa região, e não demorou muito para nos depararmos com um, que bloqueou a estrada completamente. Depois de escalar umas quantas pedras gigantes, finalmente tomamos o mini ônibus que nos esperava do outro lado, apreensivos que qualquer momento poderia ser o nosso último!

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Tiger Leaping Gorge

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