sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O exercito de Terracota

 


Depois de Beijing, Xian é parada indispensável em qualquer viagem para a China. Isso porque é a casa dos Guerreiros Terracota, um exército de aproximadamente 8,000 soldados em tamanho real e em formação de batalha, prontos para defender o primeiro Imperador da China Qin Shi Huang na sua vida após a morte.


Xian foi a primeira e mais antiga capital da China. A sua história começou pra valer em 221 a.C. quando Qin Shi Huang, o governante vigente do reino Qin, conquistou o último estado independente no turbulento Período dos Estados Combatentes e unificou a China, que antes estava dividida em sete reinos. Dessa forma, ele se converteu no primeiro Imperador e estabeleceu a primeira dinastia do grande Império Chinês, a dinastia Qin (pronunciado “Tchin”) origem do nome China.

Muito legal até aí. O que ninguém imaginava é que o cara era um louco megalomaníaco, obcecado com a vida depois da morte. Com apenas 13 anos, Qin Shi Huang começou a construir o seu mausoléu, e uma vez que virou Imperador, estava consumido por encontrar o elixir da vida eterna. E fazia de tudo o que lhe diziam para prolongar a sua existência, seja caminhadas ao topo de montanhas sagradas, ou ingerindo tudo o quanto é poção mágica, incluso mercúrio, ouro e jade.


Mas o mais importante de todos os seus feitos foi, sem dúvidas, o Exército Terracota. A crença da época era a de que, o que fosse enterrado junto à tumba, iria acompanhar a pessoa na próxima vida. E Qin Shi Huang não poupou recursos para que o seu mais além fosse o mais confortável possivel. Diz a lenda que seu túmulo – que ainda não foi escavado – contém uma réplica de sua cidade imperial, com rios flutuantes de mercúrio e um teto repleto de jóias preciosas, simulando constelações. E para proteger o seu Império, ele encomendou um exército de guerreiros terracota (barro cozido), porque sabia que esse material duraria anos depois de sua morte.


O lugar do poço de agua.

E ele tinha razão. Mais de 2.000 anos depois, em 1974, agricultores locais escavando um poço de agua encontraram fragmentos de cerâmica e descobriram o que seria a maior achado arqueológico do século XX. O mais louco é que o poço foi escavado justo no começo da formação, ou seja, dois metros mais adiante, e nunca saberíamos da existência dessa maravilha, visto que inscrições da época jamais fizeram nenhuma menção ao exército.


É estimado que foram necessárias 700,000 pessoas para a confecção das estátuas, que pode ser considerado como a primeira linha de produção da história. Acredita-se que moldes foram utilizados para o corpo, braços, pernas e oito diferentes formatos de rosto, embora todas as 8,000 estátuas foram moldadas com traços individuais. As figuras variam em peso, indumentária e penteado, de acordo com a patente de cada soldado. 



Também foram pintadas com cores vivas, mas infelizmente a pintura se dissolve e descasca minutos após exposição ao clima seco de Xian. Por essa razão, a grande maioria do exército ainda está abaixo da terra, esperando que os cientistas encontrem a tecnologia necessária para seguir escavando sem danificar a coloração original dos guerreiros.  




Nós fizemos sozinhos, já que como todos os passeios na China, as entradas são caríssimas e um tour guiado, um assalto a mão armada. E foi tudo muito fácil. Tomamos o ônibus 306 ao lado da entrada da estação de trem. Impossível de não encontrar, porque tem uma fila enorme esperando pelos ônibus que saem a cada 15 minutos. O preço da passagem é 8 yuan por tramo, e demora em torno de 45 minutos, sem trânsito. O ônibus te deixa no estacionamento do complexo, daí você tem que procurar a bilheteria. O valor de entrada é 150 yuan por ticket (25 USD) , incluindo um serviço gratuito de traslado ao parque aonde está o mausoléu do Imperador.

E se quiser um guia, sem problemas. Na entrada da bilheteria você será atacado por centenas de guias oficiais oferecendo tour de 2 horas, por 150 yuan (preço para o casal). Nós preferimos fazer sozinhos mesmo e ao nosso tempo, porque já havíamos lido e visto vários documentários, mas caso contrário, recomendamos o guia, porque as explicações em inglês nos poços e no museu são extremamente básicas e incompletas.     



Decidimos começar pelos poços 2 e 3, e deixar o poço 1 para o final. Difícil de descrever a sensação de entrar nos hangares aonde estão as fossas. O tamanho é algo arrebatador e só posso imaginar a emoção dos primeiros arqueólogos que trabalharam aqui. 


O poço 2 contém diferentes forças militares, tais como arqueiros, carruagens de guerra, cavalaria e infantaria, só que mais ou menos 80% das estátuas estão enterradas, deixando muito à mercê da imaginação dos visitantes. Mesmo assim achei bem legal para poder entender a estrutura da construção, das colunas, do teto, dos corredores e a forma em que o exército foi organizado. Também há uma exibição das estátuas mais conservadas, espadas, vasos e outros artículos.



Fiquei impressionada de ver a condição impecável das armas, que foram submetidas a um processo de cromado, que permitiu que o fio e o brilho se mantivessem por mais de 2.000 anos. A propósito, essa técnica foi desarrojada na Alemanha apenas em 1937. 


O poço 3, e menor de todos, continha os generais e oficiais de alto ranking. Mas essa fossa foi saqueada e bastante danificada, podendo-se ver apenas uma pequena mostra do que foi uma vez.


O poço 1 é a casa da infantaria, e o maior e mais impressionante do complexo. Estima-se que abrigue um total de 6.000 soldados, mas “apenas” 2.000 foram desenterrados, restaurados e posicionados em formação original. Aqui se pode observar as diferenças no ranking dos guerreiros, a singularidade de cada estátua, perceber as expressões faciais e carácter único dos guerreiros. Difícil de não ser automaticamente transportado para a China de 2.000 anos atrás.


No poço 1 também é possível acompanhar o trabalho dos restauradores, e quão difícil é remontar cada guerreiro, já que as estátuas são ocas por dentro (como um ovo de páscoa), e estão quebradas em mil pedaços.        




O complexo também conta com um museu, bem fraquinho na nossa opinião, considerando o preço da entrada e o número absurdo de visitantes 365 dias ao ano. O melhor do museu são as carruagens de bronze, só que os grupos de turistas chineses tirando foto e te empurrando, faz com que a experiência seja insuportável. O cinema 360˚ passa um filme – intercalado por sessões em Chinês e Inglês – sobre a história do mausoléu, do exército terracota e como este foi saqueado e danificado após a morte do Imperador. Meio lento, mas bastante informativo.  


Finalmente tomamos o shuttle para a tumba do ‘Qin Shi Huang’, que está incluso no valor do ticket. Honestamente não há nada para ver aí além da montanha aonde o Imperador foi enterrado e um parque enorme, que é difícil de desfrutar depois de tanta caminhada. Sabe-se que foi aí que ele foi enterrado pela alta concentração de mercúrio no solo. Mais uma vez, se estiver muito cansado, não estará perdendo nada de pular essa parte do passeio. Além disso poderá tomar o ônibus de volta a Xian mais cedo e evitar a hora de rush (demoramos mais de 2 horas na volta presos no trânsito!).







The Terracota Army


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